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A cena independente sobe ao palco: a sonoridade local no APR

A edição deste ano de um dos maiores festivais de rock do país, traz na programação cinco bandas pernambucanas


Texto de Guilherme dos Santos, Letícia Barbosa e Luiza Bispo


Recife é cidade da música! E bote música nisso. Por aqui reinam frevo, brega, forró e também o rock. Anualmente, a capital pernambucana é sede de um dos principais encontros dos “camisas pretas”, o Abril pro Rock. 

 

Com início em 1993, na década de efervescência daquele que seria um dos mais importantes movimentos culturais de Pernambuco, o Manguebeat, o espaço que se abre ao rock é reconhecido como uma verdadeira janela para o cenário underground. Além de trazer, ao longo dos anos, nomes nacionais e internacionais que, de outra forma, dificilmente seriam acessíveis às pernambucanas e aos pernambucanos, o festival tem um forte papel em agregar visibilidade para bandas do cenário local. 

 

Em 2024, o Abril pro Rock celebra 31 anos de realização. Com algumas interrupções, este ano chega a sua 27ª edição e acontece entre os dias 29 e 30 de março, no Clube Internacional do Recife. Ao todo 24 grupos vão se apresentar distribuídos entre os dois dias. Na programação, 5 bandas pernambucanas garantem o vislumbre da cena local: Insânia e Janete Saiu Para Beber fazem barulho no primeiro dia; já Infectos, O Cão e Odiosa fecham a edição deste ano

 

A Manguetown foi conhecer um pouco da trajetória dos grupos locais e conversar sobre o cenário underground pernambucano. 

Insânia 

 

Formada em 2017, entre idas e vindas de integrantes, a Insânia é composta hoje por Diogo Felipe, no vocal, Daniel Skoll, no baixo, Vitor Lima , na bateria, e duas guitarras nas mãos de   Edésio e Leeds. A banda se identifica com o Groove Metal, expressão musical que mescla elementos do heavy metal tradicional com ritmos pulsantes que são mais concentrados no peso dos riffs do que na velocidade, criando uma sonoridade “Groove” única. O Groove Metal muitas vezes incorpora elementos de outros gêneros, como trash e blues, adicionando camadas de complexidade e profundidade à sua sonoridade.


Foto: Insânia/ Divulgação

Em 2019, a banda lançou seu primeiro álbum homônimo com 7 faixas que os levou para uma turnê pelo Nordeste. Em 2021, veio o segundo álbum, chamado “Histeria”. Os lançamentos seguem durante a pandemia, com o EP “Live Lockdown” . Em 2024, o ano começou para a Insânia com o CD “Ao Vivo no Underground Nativa III”, disponível fisicamente desde o final de fevereiro. 

 

A origem do nome “Insânia” foi ideia do integrante Vitor Lima, que também é psicólogo. Ele queria retratar situações de insanidade mental, no sentido de inconformismo com a sociedade e situações do dia a dia, que são os assuntos abordados pela banda em suas canções.

 

É o quinteto que abrirá o festival, e as expectativas do grupo estão grandes. “É uma grande responsabilidade abrir o Abril Pro Rock. A gente promete fazer um show bem intenso, pra o pessoal chegar e abrir a porta com uma grande pesada”.


Janete Saiu Para Beber 


 

A Manguetown tem um carinho especial com essa banda repleta de influências do Manguebeat. Uma curiosidade é que nossa primeira publicação nas redes sociais foi sobre a Janete Saiu Para Beber (que você pode conferir clicando aqui) e, de lá pra cá, estivemos juntos em coberturas e notícias sobre lançamentos. Para esta reportagem, as agendas não conseguiram se encontrar. Entretanto, não podem faltar algumas informações sobre o grupo que quase fecha o primeiro dia do Abril pro Rock.


Foto: Reprodução/  @ralphotos






A banda, caracterizada pela sonoridade que mistura elementos da cultura popular local, punk e garage rock, é uma das atrações mais esperadas do festival. Originada em 2009, na cidade de Cabo de Santo Agostinho, Janete Saiu Para Beber possui como integrantes César Braga,no vocal, Kin Noise, na guitarra, Lennon Carneiro, no baixo, Niel Melo, na bateria, Eudes Junior e Erivaldo Romão, na percussão. Suas composições são marcadas pela presença de críticas sociais de forma sarcástica, por serem o reflexo do estilo de vida e experiências pessoais de seus integrantes. Esse fator cria uma conexão autêntica com o público, que segue fiel desde o início da banda.

 

Seus últimos trabalhos lançados foram o disco ao vivo “Janete Saiu para Beber no Estúdio Show Livre”, de 2022, e o single “Polícia para Quem?”, de 2023.

 

Infectos 

 

Originada em 2011, a banda que vai abrir o segundo dia do festival possui origem em Paulista, na Região Metropolitana do Recife, mas possui integrantes espalhados por cidades de todo o Estado.

 

Foto: Infectos/ Divulgação

Após várias formações, integram atualmente a banda os artistas David Vilela, como vocalista,  Arthur Mendes, como baterista,  Guto Leito, como baixista,  Marcelo Godoy e Bruno Rodrigues, como guitarristas, sendo este último o único que permanece a composição original do grupo. Entre os lançamentos, estão uma demo intitulada “Manipulação Cerebral”, de 2013, o EP “Feridas Esculpidas Pela Minha Catarse”, de 2014, e o “Feeding the Insanity”, de 2020. 

                                                                           

Além disso, a banda possui dois full albums: “Mente Doentia”, de 2015, e “Parasitic Transmutation of Psychopathy”, de 2022. O mais recente lançamento é “Pleasure in Decapitating”, que veio em janeiro de 2024 e faz parte do próximo EP da banda previsto para este ano. 

 

O single "Pleasure in Decapitating" marca a capacidade de reinvenção da banda, com a novidade de elementos "Old School", sem perder sua identidade, criada originalmente pelos guitarristas Bruno Rodrigues e Marcelo Godoy. A arte do projeto é de autoria do baterista Arthur Mendes, que também é tatuador, e já fez capas para outras bandas de Black Metal da cena underground pernambucana.

 

Em conversa com a Manguetown, o guitarrista Bruno Rodrigues conta que ao longo dos anos, o Infectos buscou consumir novas e variadas referências artísticas para aprimorar seu som, fugindo assim do estereótipo de banda de rock que não consome outros estilos musicais. Isso contribuiu, segundo ele, para o amadurecimento sonoro do grupo, já que agora podem explorar e terem ideias sem quaisquer tipo de limitações artísticas.

 

O Cão

 

O trio é a segunda banda a se apresentar no dia 30 (sábado) no Abril Pro Rock. Formada oficialmente em 2018, nas periferias do Recife, os integrantes contam que já se conheciam de aventuras passadas. Hugo Medeiros domina os vocais e a guitarra, Eddie Cheever, está no baixo e backing vocal, e Átila Mesquita, quebra tudo na bateria. O grupo lançou a sua primeira demo em 2020, o “Demonstrando”, composto por 10 faixas. “Devorados pelo Cão” está na rua desde o ano passado, e segundo eles, é o trabalho que tem mais a cara da banda hoje.

Foto: O cão/ Redes Sociais

A história do nome da banda simboliza o desejo de afrontar. “É uma expressão muito da gente”, conta o vocalista e guitarrista, Hugo Medeiros, que foi quem elaborou o título. “O cão”, como uma boa pernambucana ou pernambucano deve saber, pode ter um significado diverso, como pontua Hugo. Um cachorro, um estado de ser, ou o “trevoso”. As pessoas interpretam como quiserem. 

 

A sonoridade do Cão, por sua vez, caminha junto com o nome quando o assunto é provocar. Após transitar por vários estilos da música mais extrema e pesada, hoje o trio se encontra no Hardcore, que flerta com outros gêneros do rock. Para eles, falar do seu som é complexo. “Harcore é muito fechado, e é bem subdividido”, explica o baixista, Eddie. Segundo o baterista Átila, há vezes em que ele até se confunde: “Parece que a gente tá tocando um samba”.

 

“A gente quer fazer um som que gostamos, e que nos faz bem. Tocar um som porrada, passar uma mensagem”, conta Eddie Cheever, baixista de O Cão.

 

Atualmente, a banda se prepara para seu novo álbum. O título do disco a Manguetown soube em primeira mão, e será “Original Espanha Crente Style”, em analogia ao impacto de algumas pessoas conhecem o nome do grupo. Do álbum, duas das músicas serão apresentadas no Abril Pro Rock, “Se Jesus Te Ama, Eu Não” e “Confronto Diário”, e o público poderá ter um spoiler do trabalho que vem pela frente.

 

Odiosa 

 

Criada em 2017, no Recife, a Banda Odiosa representa a renovação da cena de rock independente em Pernambuco. A princípio, os vocais reivindicam destaque por serem dominados por Luísa Cunha, uma mulher negra. Completam o grupo Rafa Farias, na guitarra, Thalys Rossi, no baixo, e Vitor Lima, na bateria. Para o repertório, Odiosa identifica seu estilo como crossover hardcore, rico em elementos do punk e do metal.

 

Foto: Odiosa/ Divulgação

 

A Odiosa surgiu no bairro do Pina, na comunidade do Bode. Esse fato é motivo de orgulho para os membros, que fazem questão de ressaltar que as comunidades podem originar artistas de todos os tipos, inclusive metaleiros.

 

O quarteto que  é uma das últimas bandas a subir ao palco do Abril pro Rock deste ano, já tem um total de 3 EPs lançados: “Serviçais do sistema”, de 2019, “Mil Motivos para te Odiar”, de 2021, e “Odiosa- Ao Vivo Subúrbio Geral”, de 2023” . O mais recente é “Selva de Pedra”, que está na rua e nas redes desde o dia 1º de março deste ano. São 13 faixas inéditas e mais um bônus track com produção, mixagem e masterização realizadas pelo guitarrista, Rafa Farias, em seu estúdio caseiro. 

 

Recife, Cidade da Música Underground

 

Tema desta edição do Abril pro Rock, a proposta homenageia os lugares que resistem promovendo eventos o ano todo. Espaços como o Darkside, no bairro da Boa Vista, o Burburinho, no Recife Antigo, e o Estelita, no Cabamba, assim como lugares que ficaram na memória como incentivadores da cena, como a Soparia, o Poco Loko e o Dokas Hall.


Paulo André, idealizador do festival. Foto: Reprodução/ Redes Sociais

Aliás, foi com esse objetivo que surgiu o APR, como explica o produtor e idealizador do festival, Paulo André: “No início eu fui movido pelo incômodo, a quantidade de boas bandas que tinham na cidade e não tinham muito espaço. Além disso, havia ali um hiato muito grande entre a geração da MPB que se consagrou nos anos 70, Alceu Valença, Geraldo Azevedo , Lula Côrtes. E ,desde que essa galera se projeta nacionalmente nos anos 80, não muita coisa saiu e aí eu não falo só de Pernambuco [...] não tinha uma geração de música rock no Norte e no Nordeste projetada nacionalmente”.

 

Paulo conta que eram poucas as oportunidades de quem fazia rock expor seu trabalho. Sem internet, o canal de televisão MTV e algumas rádios eram as possibilidades. Com o surgimento de lugares, como a Soparia, aquele grupo de pessoas que produziam e consumiam estilos musicais diversos podiam se conectar. 

 

No que se refere ao cenário atual, Rafa Freitas, da Banda Odiosa, acredita que falta valorização das produções locais. “ Às vezes a gente paga 200 conto pra ver uma banda que nem chega perto da gente e não pode pagar 20 para alguns amigos aqui. Não é para a gente ficar rico, né? Às vezes, é só o nosso transporte”, desabafa ele. O guitarrista completa sobre como um fator puxa outro :  “se a gente tem essa receptividade do público, consequentemente, a gente faz mais shows, assim, se abre mais casas e mais bandas de fora vêm pra cá, porque aqui vai ser um cenário melhor, aqui vai estar mais quente e isso é bom pra todo mundo”.

 

Eddie Cheever, da Banda O Cão, destaca como a parceria é fundamental no underground. “Na cena independente, a gente tem que ter pessoas que abraçam a ideia. A galera abraçou a gente com que têm, equipamento, conhecimento”, ele afirma, chamando atenção também para o Estúdio Raízes, também cedido na camaradagem. Hugo Medeiros, vocalista, chama atenção para o fato de que produzir música é caro e quando todo mundo se ajuda, é positivo para todos os lados.  

 

Já para Diogo Felipe, da Insânia, o grande desafio é manter a própria banda, conciliando  outros compromissos, como família e trabalhos fora da música. Ele aponta, porém, que tudo vale a pena quando o grupo se encontra: “aquele momento que a gente para pra ensaiar, produzir, tocar é quando fazemos com vontade, por gostar de fazer o que faz”. Além disso, ele não deixa de pontuar o papel do Estado que, por vezes, é falho no incentivo da cena tanto com recursos quanto na proporção de eventos para esse gênero musical. 

 

Segundo Bruno, da Infectos, o incentivo de continuar vai também de outras bandas da cena local. Ele conta que não existe rivalidade, pelo contrário, os grupos são parceiros e se ajudam sempre que possível. A maioria das bandas tocam e ensaiam no famoso estúdio Darkside, então estão sempre em contato uma com a outra, se esbarrando pelos corredores. Com esse apoio, a cena se fortalece, afinal, em um movimento musical tão desvalorizado nos tempos de hoje, ainda mais sendo independente, não há espaço para rixas.

 

Sobre isso, Luísa Cunha, da Odiosa, concorda ao enfatizar a dificuldade de acessar editais que poderiam auxiliar nas produções. “Eu acredito que a galera [Poder Público] tem que dar uma olhada melhor nos editais, tanto em acessibilidade quanto em suporte, não só pro metal, mas pra cultura no geral. Só quem consegue passar é quem é antigão [em colocar projetos do tipo] e acaba que não se renova”, ela reflete. 

 

Em comum, as bandas pernambucanas têm o bastante mencionando “merch”, isto é, os itens da banda, como camisas, bonés, bottons e afins que comercializam para arrecadar recursos. Nesse sentido, os festivais e eventos que se apresentam são sempre uma oportunidade para vender os produtos, assim como de fazer contatos que podem gerar mais shows. É o caso do Abril pro Rock, que atrai caravanas de diferentes municípios pernambucanos e também de fora do estado.  

Uma Cena em renovação 

“Quem promove rock no Brasil, é resistente”, desabafa Paulo André. Ele vem percebendo que nos últimos dez anos, as novas gerações estão cada vez mais encantadas pelos “beats” dos que pelas guitarras. “A ascensão do funk, do rap, do trap e outros subgêneros é o que marcou essa nova geração e isso é um caminho sem volta”, afirma o produtor. Com base em suas andanças como espectador de festivais e na divulgação de seu livro, ele constata que o público abaixo dos 25 anos de idade, em sua maioria, não consome rock, principalmente, em sua vertente mais pesada. 

 

O motivo? A dificuldade de algumas bandas acompanharem as mudanças e se abrirem para outras temáticas e questões sociais. “São raríssimos exemplos do rock ligado ao movimento negro, ao movimento LGBTQIAPN+, movimentos sociais e foi, na minha opinião, criando certa distância da realidade, enquanto que o rap e trap são muito mais ligados a esses movimentos”, argumenta o idealizador do APR. Ele continua indicando como isso afeta inclusive o próprio meio: “um conservadorismo de setores do rock, principalmente, de uma geração mais velha, que tem dificuldade em aceitar boas bandas novas, porque acha que ninguém vai superar as antigas”. 

 

Neste contexto, as bandas pernambucanas que ocupam o palco nesta edição representam esse movimento de renovação do rock “pesado”, sendo comprometidas com pautas políticas, misturando letras contestadoras e muito barulho. 

 

Para Luísa, a Odiosa já chama atenção por ser uma das poucas bandas de hardcore com uma mulher. Ela destaca como foi difícil se inserir no meio, durante a adolescência, por este motivo. Hugo também percebe esse aspecto do lado do público e menciona como é significativo conseguir, durante os shows, convocar uma roda punk só para as minas. 

 

Enfatizando as letras em português, Hugo conta sobre como O Cão procura fazer críticas à sociedade e à realidade dos integrantes. “Eu sempre falo que as letras do O cão surgem como uma crônica. Às vezes eu to almoçando, surge uma merda que aconteceu na TV e já me dá aquele insight”, explica. 

 

Já Diogo reforça o coro: “a Insânia é posicionada, sim. As nossas letras são bem explícitas e falam de tudo que a gente acredita, principalmente, do cenário atual do país com esse turbilhão que veio aí de 2017,2018 pra cá”. 

Abril pro Rock 2024

Para a apresentação, a expectativa de Luísa e Rafa, além dos grandes nomes, é ver os colegas de categoria no palco. “Eu quero ver é rock. Quero ver Insânia, O Cão, Infectos, quero ver as bandas daqui”, afirma a vocalista. Já para Rafa, o APR deste ano vai ser o primeiro de todas as formas, pois nunca conseguiu conciliar a agenda para frequentar o evento. 

 

Diogo e Daniel, quando perguntados o que esperam ver no festival, a resposta é rápida: “Todas”, mas revelam que estão na expectativa pela banda mexicana Brujeria, que faz apresentação única no Nordeste, no palco do festival. Reforçam ainda o desejo de ver as bandas locais compartilhando o palco. 

 

Quanto ao trio, Hugo, Átila e Eddie, bandas que ouvem desde a adolescência fazem brilhar os olhos na programação, mas são os companheiros do estado que querem ver: “eu quero ver a galera que nem nós, lá no palco”, revela Hugo. 

 

Representando a Infectos, Bruno afirma que a expectativa, além de assistir aos shows das bandas que conhece, é descobrir novos talentos. Como fã do festival desde sempre, espera que essa oportunidade ilustre abra portas na carreira da banda.

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