Afro G’, o grafiteiro que leva a cultura negra do Recife para o Brasil
- Luíza Bispo
- há 14 horas
- 3 min de leitura
“Sou preto,
Orgulhoso mesmo e daí?
Por isso que eu cresci,
O que é que você fez por mim?
Inspirado em Notorious B.I.G. e Tupac
Antes como Malcom, hoje como Martin
To no Arruda fazendo minha parte
Salvando vidas através da arte!”
É assim que abre a música “Preto Mermo”, do rapper recifense Okado do Canal. Nas plataformas de streaming, os versos rimados, que reafirmam o poder de expressão e ascensão cultural de jovens negros através da arte, são ilustrados por obras do grafiteiro Afro’G, artista que anda ganhando notoriedade em todo o país pela singularidade de seus traços, expressados na representação visual da população negra por meio do pixo. A ligação entre os artistas não poderia se tratar de uma surpresa inesperada, visto que, ambos abordam, de sua maneira, a ocupação e resistência da periferia e as nuances da masculinidade negra.
Recém passado o Dia Internacional do Graffiti, a Manguetown Revista não teve outra opção se não celebrar o jovem que está conquistando a vida – e o Recife – com seu spray.
Com apenas 22 anos, Ricardo Gabriel, ou Afro’G, ilustra todos os cantos da capital pernambucana e sua extensão na Região Metropolitana. Quem passa no Túnel Josué de Castro, no Pina, certamente já se deparou com seus personagens representados na muralha. A Ponte Princesa Isabel, nas margens do Rio Capibaribe, também possui, em sua extensão, 160 metros de referências negras e traços característicos, fazendo alusão ao hip hop e ao cangaço nordestino. Nem o bairro de Cajueiro Seco, em Jaboatão de Guararapes, passou imune pelas obras do jovem artista, que conta, agora, com a figura do cantor Mago de Tarso eternizado em seu lugar de origem.

Afromodernismo para além dos altos coqueiros
Com um traço bastante característico, Afro’G desenvolveu um estilo próprio ao longo dos anos: o afromodernismo. Fruto de muito estudo, o estilo mistura elementos do afrofuturismo mundial – em uma pegada cyber – com vivências periféricas. Personagens negros, geralmente com seu óculos característicos, protagonizam suas telas, com traços grossos e cabelo black.

Destaque desde criança, começou a entender a obra que gostaria de criar folheando os cadernos de sua avó, mas foi só aos 18 anos que o artista começou a se profissionalizar, integrando coletivos e organizações de arte urbana. Com apenas um ano de carreira no graffiti, Ricardo Gabriel já lecionava em oficinas por meio do projeto estadual “Juventude Presente”, repassando seus conhecimentos para outros jovens como ele.
A partir disso, sua carreira decolou. Hoje, o grafiteiro quebrou as barreiras locais, tendo alcançado nível nacional. Em uma entrevista especial para a reportagem, ele conta ter um orgulho especial do mural produzido no emblemático Beco do Batman, na capital paulista, espaço conhecido por sua importância para a grafitagem. Recentemente, também produziu artes inéditas inspiradas em sandálias da Kenner, a convite da própria marca.

Vindo de uma família de catadores de recicláveis, Afro’G é grato pelo alcance adquirido por meio de suas telas e da arte urbana, mas sente que o caminho só está começando. “Eu vim de uma origem muito pobre, então muitas vezes já achava que estava em ascensão. Hoje eu acredito que tenho muito caminho a percorrer, sou grato pelas coisas que estou conquistando, mas esse mercado é muito fácil para as pessoas que já têm recurso financeiro, não vou me contentar com migalhas”, conta. Sobre seu futuro, ele acrescenta: “Eu me imagino vivíssimo, com mais reconhecimento, ainda mais oportunidades, mais parcerias com grandes marcas, pra que eu possa ajudar outros artistas a percorrerem os seus caminhos também”.
Entre suas inspirações, o grafiteiro Marquinhos ATG, também recifense, foi um nome importante em sua trajetória, tendo o instruído no início de sua carreira, além de ser um parceiro de projetos. Para além do trabalho, a admiração também parte de luta: “Para mim, Marquinhos ATG é um dos caras mais especiais e continua sendo cada vez mais. O mundo da arte é muito predatório para as pessoas negras, eles nos dão migalhas e um péssimo suporte e querem que a gente entregue um trabalho extraordinário. Às vezes até os próprios artistas acabam replicando isso, explorando e remunerando mal, mas ele é o contrário, sempre está atento aos mínimos detalhes e ao cuidado com o artista”.
Com seus traços espalhados pelas ruas do Recife e além, Afro’G segue transformando muros em espaços sociopolíticos de resistência e identidade. Seu trabalho inspira jovens artistas a enxergar no graffiti uma ferramenta de transformação social, com toda a potência da vivência urbana, negra e periférica. Viva o pixo, o hip-hop e a juventude negra!
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